Capítulos 1, 2 e 3 de Gaya


Capítulo 1 

Como a vida é engraçada... Parece brincar com a gente. Que brinca- deira sem graça. Mas Gaia não estava disposta a brincar. 
É pior do que uma trágica comédia grega, pensou ela. 
Sua vida nas últimas semanas deu uma guinada. Não poderia dizer que antes fosse perfeita, longe disso, mas, mesmo com a sua excentricidade, sabia bem onde pisar. Tinha seus pontos de referências. Sentia-se protegida e segura. 
Mas agora era diferente. 
Olhava para as paredes do quarto grande e luminoso de uma casa desconhecida, onde tudo lhe era estranho. Sentia-se frágil e vulnerável. Literalmente doente. Ela não se lembrava de qual foi a última vez que ficara doente. Nana, sua governanta, sempre dizia: 
— Benza a Deus, minha menina nunca cai de cama, tem a saúde de ferro. Que continue assim. 
Gaia se recordava da expressão de espanto e reprovação de Nana quando um dia seu pai, Renato, lhe disse: 
— É normal, Nana, é a nossa Iron girl! 
Nana arregalou os olhos, alarmada. Para ela, foi como se ele tivesse soltado um palavrão na frente da filha. 
— Calma, Nana, não me olhe desse jeito, é a mesma coisa que você falou, mas dita de outra forma. Só quis dizer que a nossa Gaia é uma “menina de ferro”. 
— Ah, é?! Mas não é mais fácil utilizar palavra menos complicada? 
— replicou a governanta, tão enfurecida que Renato não conteve uma gargalhada. 
Nana morava com eles desde o nascimento de Gaia. Nunca fez questão de aprender o inglês, e o pouco que falava usava um sotaque grego bem carregado. Ela costumava dizer: 
— Falo a língua que conheço desde que nasci e não quero falar nenhuma outra. Assim não sou eu... 
As lembranças pesavam muito no coração de Gaia, e as saudades das pessoas que conhecia e amava eram ainda mais insuportáveis. 
Ela e o pai sempre sonharam com uma verdadeira casa. Deixar o iate onde moravam e se fixar um dia em terra firme; em uma linda casa, com as janelas dos quartos com vista para o jardim, e não para o mar. Onde pudessem abrir a porta e pisar na grama, sentir o cheiro verde do gramado em vez da maresia. Esse era o sonho de ambos. 
Agora estava ali, na casa dos seus sonhos, sentindo-se só e abandonada, mesmo que os tios, Lyra e Círio, estivessem cuidando dela com todo o carinho e esmero. 
Gaia tinha medo de abrir os olhos e encarar a realidade. Não conseguia imaginar a sua vida fora do iate, sem as presenças do pai, Nana, Christophe, o cozinheiro — mais conhecido por Totof —, Roy e Sarah. Mas só foram com ela as lembranças, algumas roupas, Bolinha de Neve — seu cachorrinho 
—, alguns objetos que lembravam o pai e um quadro que a mãe pintara e lhe dera pouco antes do acidente fatal, quando ela tinha apenas sete anos. Foram dias que ficaram gravados em sua memória como um filme abandonado no canto de um armário, pronto para ser recuperado. Mas ela procurava esquecer os fatos, enterrar o passado; mesmo que as recordações da infância fossem ainda bem claras em sua mente, desde que tinha quatro anos de idade... 

A primeira lembrança que tinha da infância foi de uma bela manhã de verão. O sol estava ameno e a água do mar, agradável. Usando máscara, Gaia mergulhou na superfície de um mar calmo e cristalino, não muito longe da praia, com a mãe Larissa, e Lyra, sua tia. Elas lhe mostravam os peixinhos coloridos que nadavam perto da superfície. De repente, Gaia foi sugada para baixo. Debateu-se, era como se alguma força a puxasse e não quisesse soltá-la; quase se afogou. Embora não gostasse de se lembrar daquela ocasião, a imagem do fundo do mar não a deixava com o passar dos anos. Mas sempre que se lembrava, fechava os olhos, procurando pensar em momentos mais felizes; escolhia sempre o dia do seu sétimo aniversário, quando a mãe a acordara de manhã com um lindo sorriso e um bolo de chocolate com sete velinhas coloridas. Sob o bolo havia um presente embrulhado em um delicado papel lilás, que lhe servia de bandeja. Ainda sonolenta, saltou da cama abraçando-a, sem prestar atenção ao pai, Totof e Nana, que estavam logo atrás. 
— Ei, princesa, e nós, não merecemos um abraço? 
Com o mesmo impulso, ela se desprendeu da mãe e pulou nos braços do pai, depois abraçou Totof e, finalmente, Nana, saltitando de alegria ao som desafinado do “Parabéns para você, nesta data querida...” Todos traziam um presentinho. Mas o de Larissa foi o único que conservou até então. Era o seu único tesouro. 
Gaia ainda se lembrava de que o abriu delicadamente, como sua mãe sempre fazia. Primeiro descolou a fita adesiva, depois desdobrou cada canto, sem rasgar o papel. 
Os olhos da menina brilharam ao pousar na paisagem montanhosa eternizada na tela numa belíssima pintura a óleo. 
— Ah, mommm! 
— É seu agora, querida, “O gigante adormecido”. Você pode pendurar na parede do seu quarto, se quiser. 
— Mom, é o quadro mais bonito que você já pintou até hoje. Eu adoro ele. Vou pendurar em cima da minha cabeceira, assim vamos dormir sempre juntos, e ele vai me proteger dos meus sonhos maus. E eu vou cuidar dele também. 
Larissa sorriu e deu-lhe um beijo demorado na cabeça. 
Assim que começou a pintar o quadro, a filha o batizou de “O gigante adormecido.” Dizia que aquela pequena montanha rochosa parecia um gigante dormindo de barriga para cima, com a cabeça virada para o mar, e que provavelmente era para se refrescar, pois o sol estava muito quente. 
— Assim como você faz comigo, Mom, não para de molhar minha cabeça quando estamos na praia tomando sol! 
Larissa sorria. Estava sempre sorrindo. E esse sorriso era a lembrança mais forte que Gaia registrou na película da sua memória. O que mais se recordava da mãe? Preservou o seu cheiro. Cheirava a lírio, um perfume suave e discreto. Via no mar a cor profunda dos olhos dela — mistura inde- finida de verde e azul. O aconchego dos seus braços, ao levá-la para dormir. 
Eram esses pequenos detalhes que permitiam que Gaia conservasse a mãe sempre por perto. 

Capítulo 2 

Suas lembranças sempre cessavam ali — em seu aniversário de sete anos. Então voltou os pensamentos para o pai. Fazia uma semana que não o via, mas parecia uma eternidade. 
Ele mudara tanto!, pensou Gaia. E continuou mudando à medida que as pesquisas avançavam. Viajava muito. Estava sempre distante fisicamente, embora, preocupado, procurasse manter contato por meio de telefonemas e, sempre que podia, enviava-lhe presentes, mostrando que ela estava sempre em seus pensamentos. 
Renato amava Larissa e Gaia, com um amor cego. Existia só para as duas, “suas meninas”, como dizia. Nunca se conformou com o acidente inexplicável que provocou o desaparecimento da esposa e a levara de sua vida para sempre. 

“Mais um avião desapareceu no Oceano Atlântico, entre as ilhas Bermudas e a costa da Flórida, na manhã do dia 7 de julho. O mar sugou o avião e seus 74 passageiros, e os levou para o fundo, sem deixar vestígios, como um dragão engolindo a vítima” — dramatizou a repórter. “A última comunicação do piloto dizia que o céu estava azul e claro e que pousariam em poucos minutos no aeroporto de Fort Lauderdal, na Flórida, mas, para a tristeza de muitas famílias, a aeronave nunca chegou ao destino. Entre os passageiros estava a senhora Larissa Gottesstein, esposa do multimilionário Renato Gottesstein. A redação do nosso jornal sente muito e deseja condolências a todos os familiares das vítimas”, disse a repórter da grande rede americana de notícias, a CNN. 
O avião desaparecido era a manchete de todos os jornais. Só se falava no misterioso acidente e nas pessoas importantes que morreram nele. Nervoso e irritado, Renato ouviu ainda a repórter concluir: 
“As várias tentativas de resgate fracassaram. As autoridades responsáveis declaram que não restou nenhum vestígio do avião, o que torna ainda mais difícil o prosseguimento das buscas. O dossiê será arquivado como mais um acidente misterioso na região. Passamos agora para a meteorologia...” 
Mesmo sem querer, Gaia se lembrava com detalhes desse dia. Da expressão de frustração da jornalista, que mais parecia amiga íntima das famílias, da reação do pai, que em um impulso desligou a televisão e jogou o controle remoto contra a parede, quebrando-o em mil pedaços. Gaia nunca se esquecera dos gritos histéricos dele naquele momento... 
— Eles me prometeram continuar as buscas. Agora ouço por terceiros que pararam. Que não vão mais adiante!! Simplesmente desistiram! Isso não vai ficar assim! 
Descontrolado, pegou o telefone e começou a fazer ligações. 
Gaia se aconchegou nos braços da governanta. Sentia medo. Nunca viu o pai perder o controle. Abraçou Nana ainda mais forte e chorou em silêncio. Na época do acidente, há nove anos, imaginava um enorme dragão de olhos cor de fogo saindo das profundezas do oceano e engolindo o avião inteiro com sua mãe e todos os outros passageiros desesperados de terror. Essa imagem acompanhou-a durante anos em pesadelos. Acordava durante a noite gritando. Nana não aguentava mais as idas e vindas noturnas para ampará-la, até que, por sugestão de Renato, passou a dormir no quarto de 
Gaia. Uma cama colada na outra. 
Gaia só conseguia adormecer agarrada à mão de Nana, que lhe cantava baixinho as canções de ninar que ouvia quando era criança. 
Balançou a cabeça, tentando afastar esses pensamentos, pois foi a partir daí que começou a perder o pai. 


Capítulo 3 

Inconformado, Renato decidiu recomeçar as buscas pelo avião independentemente das autoridades encarregadas. Só precisava encontrar as pessoas certas para ajudá-lo. Comunicou a sua decisão a Roy, seu sócio e melhor amigo. 
— Renato, isso é loucura, aceite o inevitável. As águas dessa região são muito profundas e sempre sujeitas a maremotos, talvez já não exista mais resto de nada. As equipes de busca já fizeram tudo que era possível, ir mais além é suicídio! 
— Roy, não adianta, vou até o fim, sinto que preciso encontrar uma resposta. Devo isso a Larissa. Cada noite, ao fechar os olhos, é como se ela estivesse lá me suplicando para encontrá-la, para não deixá-la sozinha, para proteger Gaia. Às vezes já não sei mais se é sonho ou realidade. A presença dela é tão forte em mim... 
— Renato, esses sonhos são o resultado do seu desgaste emocional, do seu sofrimento. Estamos todos muito chocados. Sei que não é nada fácil, principalmente para você e Gaia, mas é assim a vida, meu amigo! Mas, veja, se prosseguir com este projeto vai ajudá-lo a se sentir melhor, vou liberar a parte que me concerne. Se decidirmos juntos, o setor de finanças e a junta administrativa não mostrarão resistência. E, afinal, você é o chefão, não? 
Desde a faculdade, Roy sempre fora o mais sensato dos dois. Renato não tomava uma decisão sem consultá-lo. Costumava afirmar que ele era o seu irmão espiritual. Sempre calmo e sereno, conseguia equilibrar e apaziguar o lado explosivo e impulsivo de Renato. “Deve ser a influência do tempe- ramento brasileiro”, pensava Roy, quando Renato transformava uma gota d’água em uma tempestade.
Ainda bem que você morou no Brasil só até os seus dezoito anos — dizia Roy às vezes irritado. — Não entendo como você pode ser assim tão suscetível tendo pais alemães. Ah, esses brasileiros!


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