Heróis e Vilões - capítulo 1


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Heróis e Vilões



 CHEGA DE VIOLÊNCIA!

 

 O capitão Inocêncio Alves, às sete horas da manhã, havia determinado que eu seguisse ao Hospital Benigno Santa Marta, pois lá iria haver um debate sobre: a violência urbana e as suas consequências na sociedade.
 — Capitão, por que o senhor não mandou outro sargento?
 — Você foi o escolhido.
 — Posso saber por quê?
 — Ah! Isso foi uma decisão do comandante.
Quando cheguei ao auditório daquele hospital, vi que várias pessoas aguardavam o início do debate… Havia mais ou menos umas quatrocentas pessoas.
— Sargento Wesley, por gentileza! — chamou-me a tenente Isadora.
— Bom dia, tenente Isadora! A que devo a honra?
— Bom dia! Olha, é que tanta gente fala de você,  que eu fiquei curiosa para te conhecer.
— Espero que não tenham falado tão mal de mim.
— Para ser sincera, só duas pessoas não me deram boas referências suas.
— Já sei… A tenente Yasmim e a tenente Thábata.
— Você também adivinha coisas?
Preferi responder com o silêncio.
— Olha, os soldados Caio e Kelvin estão sentados ali naquelas cadeiras.
bom, tenente! Eu vou para lá também.
— Não. O tenente-coronel Severo disse que é para a gente ficar aqui nessas cadeiras da frente.
— Ah, tenente! Eu não pretendo ficar aqui, não.
— Mas essas cadeiras foram reservadas para nós policiais militares.
Chamei os soldados Caio e Kelvin, e eles ocuparam os locais determinados.
— Tenente, quem mais foi convocado para participar dessa palestra?
— Além de nós, que estamos aqui, só o cabo Homero ainda não chegou.
Às nove horas da manhã, os palestrantes chegaram e tomaram os seus lugares à mesa… Após as apresentações de cada um, a antropóloga Paola Sabatinni, presidente da ONG “Violência Nunca Mais”, deu início ao tão esperado debate:
— Chega de violência! — disse ela, aumentando o tom de voz. — Nós somos seres humanos e devemos agir como tais! Nós fomos feitos para amar o próximo, e não para maltratá-lo ou destruí-lo! Mas sabem por que a violência está aumentando de forma estupenda e fora de controle? É por causa de nós mesmos… Nós estamos fechando os olhos para uma coisa que é básica para acabar com a violência… estamos perdendo o respeito pela vida… E isso é muito grave. Sabem por quê? Alguém se habilita a me responder?
Como não houve a manifestação de algum voluntário, ela pediu a opinião da tenente Isadora.
— Meu nome é Isadora Spinelli. Sou Tenente da Polícia Militar e concordo com o que a senhora está falando… pois o desrespeito à vida faz com que as pessoas não se preocupem com o que acontece com os seus semelhantes.
— E a violência divulgada na mídia? Você acha que está certo? — perguntou a antropóloga.
— Não. Eu acho que isso faz com que a violência seja banalizada — respondeu a tenente Isadora.
— Muito bem, tenente! Sua resposta foi muito boa! Mas o homem é um ser racional, tem a capacidade de saber distinguir o que é bom ou o que é ruim, porém tropeça em sua própria ignorância, muitas vezes agindo como um predador… É por isso que eu pergunto à minha amiga… socióloga Marta Reis, diante das suas ações ameaçadoras, o homem é um ser humano ou um animal?
A socióloga Marta Reis teceu comentários sobre os pensamentos de alguns filósofos, que tiveram as suas opiniões valiosíssimas através dos tempos, figuravam a personalidade do homem resultante do meio em que ele vive na sociedade.
— O homem, antes de tudo, é um animal, Doutora Paola! Porque ele tem dentro de si o instinto da sobrevivência, se ele se sente coagido ele tende a se defender, e muitas vezes nessa defesa ele se vê obrigado a atacar… Eu acho que o “Thomas Hobbes” estava certo quando alegava que “o homem é lobo do próprio homem”. Se ele dizia isso naquela época, imaginem o que ele afirmaria hoje! Talvez ele afirmasse… o homem é a bala do próprio homem ou quem sabe o homem é a bomba do próprio homem em se tratando do Oriente Médio. Mas, saindo das teorias e voltando para a prática, que é o que nos interessa, eu gostaria de perguntar ao coronel Olavo Bittencourt o que a Polícia Militar está fazendo a nosso favor, uma vez que o nosso estado clama por segurança, coronel?
— Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer o convite da minha amiga de muitos anos, antropóloga Paola Sabatinni… e externar os meus sinceros pensamentos sobre esse monstro que devasta a sociedade… Para mim, isso é uma praga cujo remédio seria muito trabalho e muita dedicação para saná-la… Por isso, gostaria de conclamar a todos aqui presentes, incluindo os meus companheiros de serviço que estão aqui na plateia, para observar aquele indivíduo suspeito que para numa esquina, aquele veículo com mais de três indivíduos em seu interior que passa duas ou três vezes pelo mesmo local… Nós policiais temos a obrigação de abordá-los e verificarmos se estão portando alguma arma ou de posse de algum produto de roubo ou furto… Os demais cidadãos têm o dever de colaborar com as instituições policiais no sentido de informar, caso haja, alguma anormalidade em sua rua, no seu bairro ou até mesmo na sua cidade, porque a Polícia Militar está nas ruas protegendo a sociedade se empenhando o máximo que pode, seja com policiamento a pé, de bicicletas, de motocicletas, a exemplo da ROCAM, e de viaturas. O governador de Pernambuco tem investido muito na compra de armas, munições, viaturas e recursos humanos, e o seu objetivo é conter a violência que assola o nosso estado, pois esse mal afasta os turistas e outros tipos de investimentos do nosso estado… Estou certo? Você aí, que está próximo à tenente Isadora!
— Eu? — perguntou o soldado Caio.
— Sim. Você mesmo.
— O que o senhor me perguntou mesmo, coronel?
— Primeiro, eu quero saber o seu nome.
— Eu sou o soldado Caio Fortekesller.
— Muito bem! O que eu quero saber é o que você está fazendo para diminuir a violência na sua área de atuação?
— Muita coisa, coronel?!
Algumas pessoas da plateia riram, involuntariamente, da forma hilária como Caio respondeu à pergunta.
— Fico feliz que você esteja fazendo muita coisa! Mas o que nós aqui queremos é que você enumere algumas!
— Nós abordamos todos os tipos de veículos tidos como suspeitos, inclusive táxis e ônibus… Nós que eu digo são os componentes da minha guarnição, com o intuito de inibir as ações dos assaltantes nós abordamos os indivíduos que trafegam em bicicletas, motos e automóveis… Nós conduzimos criminosos à delegacia quase todos os dias, coronel.
— É, Caio… você acabou de nos dar um resumo das nossas atividades policiais, e são essas ações que deveremos priorizar a cada dia de forma incansável, pois só assim é que poderemos diminuir o índice de violência, seja ela de que tipo for… roubo, furto, homicídio, sequestro etc.
Após o coronel Olavo Bittencourt explanar as suas ideias, a psicóloga e psiquiatra Doutora Cláudia Coreone, depois dos agradecimentos de praxe, continuou com a palestra:
— Amigos da plateia, nós estamos aqui para alertar a todos, pois temos vários fatores que são capazes de gerar a violência… Um deles são as drogas ilícitas, que com o seu uso pessoal ou tráfico faz com que muitas vidas sejam ceifadas. Mas eu não quero entrar em detalhes quanto a esse assunto, mesmo porque o meu colega Doutor Franklin Moscoso, delegado da Polícia Federal, vai tirar todas as nossas dúvidas sobre ele.
Eu fiquei ouvindo aquelas palavras atentamente, pois o assunto parecia muito interessante.
— Antes de exprimir a minha ideia, quero apoiar a minha amiga antropóloga, Paola Sabatinni, a fortalecer a sua luta contra esse mal que assola a humanidade e digo… chega de violência! Porque o que queremos é a paz infinita, é a justiça, é a união de todos nós para que possamos viver como uma grande família.
O soldado Caio já estava ficando impaciente com tantas teorias.
— O que foi, Caio? — perguntou a tenente Isadora.
— Tenente, isso aí é “conversa pra boi dormir!”.
— Por que você está dizendo isso?
— Porque faz mais de uma hora que estamos aqui… e a conversa não sai desse negócio de dizer que devemos nos unir, que devemos agir como uma grande família, que devemos respeitar as pessoas… Eu pensei que eles iriam falar de coisas mais interessantes!
— Silêncio, Caio! Vamos ouvir o que a Doutora Cláudia vai falar agora.
— Diante do ponto de vista psicológico… ou até mesmo psiquiátrico, gostaria de dizer que existem vários tipos de distúrbios psicológicos, anomalias psíquicas, falhas no caráter, fobias indetectáveis e psicopatia que contribuem para que o homem seja propenso à violência… Muitas vezes, um simples sentimento de inveja, revolta ou vingança faz com que os números de homicídios aumentem de forma galopante, ficando acima dos limites aceitáveis. Alguns indivíduos tentam disfarçar ou esconder tais sentimentos consumindo drogas lícitas ou ilícitas. Para que todos possam entender, as drogas lícitas são: o cigarro, que não tem propriedades alucinógenas, mas mata milhões de pessoas no mundo inteiro, tendo como doença principal o câncer, seja ele de boca ou de pulmão… Então o conselho que eu dou a todos que estão aqui presentes é: não fumem! E a bebida alcoólica, que, por mais inofensiva que pareça e seja vendida a qualquer hora do dia ou da noite, tem causado um grande estrago na sociedade, seja com acidentes de trânsito ou como vítimas de homicídio, já que os viciados são alvos de constantes provocações.
— Doutora Cláudia, eu posso lhe fazer uma pergunta? — interrompeu um dos espectadores que estava sentado próximo dela.
— É claro que sim!
— Quem consome mais drogas é o rico ou o pobre?
— Olha, como é o seu nome?
— Meu nome é Roberto Leão.
— Olha, Roberto, nós não estamos aqui com dados de alguma pesquisa que comprove isso que eu vou dizer agora, mas eu acredito que, pelo fato de o rico ter um poder aquisitivo melhor, logicamente eles consomem mais.
— Mas, doutora, por que eu só vejo morrer gente pobre? Para ser sincero, dificilmente eu ouço falar na morte de um rico causada por tráfico ou uso de drogas.
— O que eu vou falar aqui, imagino que vocês já saibam. Apenas não estão conseguindo conciliar os fatos com as consequências… Muitos viciados que têm boas condições financeiras morrem ou de acidente de trânsito, ou de overdose, ou suicídio… Que são mortes que podem ser atreladas a outras causas em vez de serem relacionadas às drogas. Já o indivíduo pobre, como na maioria das vezes adquire pequenas quantidades de drogas para comercializar ou satisfazer o seu uso pessoal, quando deixa de prestar contas por algum motivo alheio à sua vontade é obrigado a pagar a dívida com a própria vida… E dando continuidade ao nosso debate, Professor Marcos Monteiro, o senhor havia me falado nos bastidores que a violência é um fenômeno?
— A violência é um fenômeno que faz parte da sociedade. É desde o início da humanidade que ela existe. Talvez ela tenha surgido, tão somente, para assegurar a sua sobrevivência, mas com o passar do tempo serviu para inibir as ações de outros seres humanos… usurpando a soberania, a religião, a cultura, a riqueza, a política e a dignidade de um povo.
— Como assim, professor? — perguntou a Doutora Cláudia Coreone.
— Observem o meu raciocínio. Vocês acham que o presidente dos Estados Unidos invadiu o Iraque por quê? Porque é bonzinho?! Ou estava preocupado com o sofrimento dos iraquianos, que eram subjugados por um ditador sem escrúpulos?! Não. Por trás disso tudo havia um interesse político ou econômico que vai desde as cobranças das dívidas até o comércio de armas. Estou dando esse exemplo não para que seja debatido de forma polêmica, mas para mostrar que essa guerra serve de inspiração para aqueles que praticam a violência.
— Professor Marcos, não estou entendendo o que o senhor está tentando explicar! — disse uma das enfermeiras daquele hospital.
— Vou te dar um exemplo mais lógico. No ano de 2002, você sabe quantas pessoas foram mortas com armas de fogo no nosso país?
— Não, professor!
— Quarenta mil pessoas. E na guerra do Vietnã? Você sabe?
— Não!
— Quase sessenta mil soldados norte-americanos… Isso durante seis anos de guerra. Conclusão… no Brasil, está se matando mais do que na guerra.
— E no Brasil há tantas armas assim, professor?!
— Supõe-se que há quase quatro milhões de armas espalhadas em nosso país. Espero, sinceramente, que eu tenha despertado em todos aqui presentes o interesse de cooperar com a diminuição da violência e passo a palavra para o Doutor Franklin Moscoso, delegado da Polícia Federal.
Após os agradecimentos iniciais, o doutor falou:
— Cidadãos pernambucanos, gostaria de conclamar a todos para ser um vigilante incansável da sua rua, da sua vila ou do seu bairro… e uma testemunha vitalícia no combate à criminalidade. A violência está crescendo por causa da ausência dessas duas coisas. Porque as pessoas não estão mais se preocupando com o que está acontecendo com o seu vizinho da frente, ou o da esquerda, ou o da direita. Agora eu pergunto, se você for vítima de um meliante desses, quando a Polícia Militar chegar para você e pedir duas testemunhas, o que você vai fazer? Vai fazer o que é lógico! Você vai chamar um vizinho ou um amigo seu para testificarem ao seu favor e com isso prender o seu agressor! Não é verdade? — perguntou para a plateia.
As pessoas ouviam atentamente, mas ninguém se propôs a responder.
— Coronel Bittencourt! — disse ele.
— Pois não, Doutor Franklin!
— O senhor não acha que está faltando um pouco de reciprocidade entre as pessoas?
— É claro que acho! E gostaria de alertar que isso é muito grave, coronel Bittencourt. E eu temo que isso faça com que a violência fique estabilizada nos índices atuais, sem a perspectiva de haver uma considerável diminuição… Pois o problema é que algumas pessoas se iludem achando que isso ou aquilo nunca vai acontecer com elas, que só vai acontecer com os outros. Amigos, coloquem na cabeça que hoje vocês podem servir de testemunhas para alguém, amanhã vocês poderão precisar de uma.
O coronel me convocou para que eu dissertasse sobre a dificuldade de arrolar testemunhas na via pública.
— Caros ouvintes, geralmente quando eu vou para uma ocorrência que envolve homicídio, roubo, furto ou outro tipo de delito perco muito tempo no local tentando convencer as testemunhas a prestarem depoimento, e o pior, muitas vezes não obtenho êxito. E isso faz com que a autoridade policial acabe liberando o acusado, dependendo da situação, é claro! — respondi.
De repente, um cidadão se levantou e perguntou:
— Doutor Franklin, eu estou percebendo que neste debate está havendo algum tipo de discriminação com os espectadores.
— Discriminação?! Como assim?
— Eu percebi que todos os palestrantes só dirigem as perguntas aos policiais militares que estão sentados aí nessas cadeiras da frente. Posso saber por quê?
— O Doutor Vicente Toledo pode explicar! — disse o delegado. — Doutor Toledo, por gentileza, explique ao nosso amigo o objetivo deste debate.
— OK, Doutor Franklin! Explico com todo o prazer! O objetivo deste debate é que todos os cidadãos se empenhem na luta contra a violência, por isso convidamos os palestrantes de primeiro escalão, que são os que estão aqui nesta mesa, pois eles dissertam sobre a parte teórica do assunto, e os de segundo escalão, que são cinco policiais militares aqui presentes que representam a parte prática, pois eles têm a ampla experiência do dia a dia em ocorrências de vulto. Espero que todos tenham entendido o teor da mensagem que repassamos até o momento. E gostaria de lembrar que, se alguém tiver alguma pergunta a fazer, esta poderá ser feita após as explanações da Doutora Isabela Monterrey, delegada de polícia, que representa a Delegacia de Homicídios. Estou certo, Doutora Isabela?
— É claro que está, Doutor Toledo! E, aproveitando o ensejo, eu gostaria que o senhor falasse um pouco dos prejuízos que a violência traz aos hospitais públicos.
— Nesta oportunidade ímpar que tenho, ao lado de nobres amigos, é com muito prazer que estou aqui para palestrar sobre esse fato… Gostaria de enfatizar que, no caso dos nossos hospitais, os prejuízos são incalculáveis, pois a verba que nos é repassada e que deveria ser utilizada para comprar equipamentos sofisticados para exames de rotina, desde os mais simples como um exame de urina até um dos mais complexos como um encefalograma, ou até mesmo um teste de DNA, está sendo desviada … Mas como poderemos trabalhar em função dessa finalidade? Nosso objetivo é atender bem o cidadão de baixa renda, queremos atendê-lo de forma satisfatória. Mas como? Se nós estamos gastando tudo com as vítimas da violência!
Toda a plateia ficou surpresa com as suas alegações. E ele continuou o seu discurso.
— Todos os dias chegam pessoas baleadas, cada uma em situações diferentes. Nós atendemos aquele cidadão que só porque bateu no veículo de um desconhecido foi alvejado, aquele que foi atingido com uma bala perdida, aquele que se envolveu num crime passional, aquele que foi alvo de vingança, às vezes até por parte de algum amigo ou algum parente de cabeça quente, aquele que foi perseguido por um grupo de extermínio… E, infelizmente, aquele que arrisca a sua vida perseguindo os malfeitores de nossa sociedade… Aquele que desafia os nossos defensores do dia a dia, que são os policiais militares.
Naquele momento, eu senti no meu peito uma emoção muito forte… Senti o orgulho de ser um policial militar.
— Por isso, coronel — continuou o Doutor Toledo —, eu peço a sua licença para fazer algumas perguntas aos seus companheiros de farda!
— Positivo, Doutor Toledo! Esteja à vontade.
— Eu gostaria de fazer a primeira pergunta para o sargento Wesley Montecarlo.
— Pois não, doutor! — respondi.
— Gostaria de saber, na sua opinião, o que deve ser feito para se reduzir o índice da violência?
— Doutor Toledo, eu gostaria de ter uma fórmula eficaz que pudesse ser usada para conter esse mal que assola toda a humanidade… Mas, pelo que percebi neste debate, cada participante tem a sua opinião subjetiva sobre esse assunto.
— Sim. E por causa disso você vai deixar de opinar?
— Não! É por isso que eu aproveito esse tempo que me foi concedido para dizer que não é somente a Polícia Militar de Pernambuco que deve ser responsabilizada pela falha da segurança pública… Mesmo porque a sua missão específica é a prevenção do crime, ou seja, a ostensividade dos policiais nas ruas faz com que o meliante fique inibido para cometer o crime. Porém, não podemos garantir essa situação em cem por cento, porque existem outros fatores que contribuem para que a nossa segurança seja abalada.
— Que fatores são esses, sargento Montecarlo? Nos dê alguns exemplos.
— Suponho que o fator que mais coopera com a ineficácia da nossa tão frágil segurança, sem sombras de dúvidas, é a impunidade — respondi, sem pensar muito. — Porque muitos meliantes testemunham, a cada dia, o indivíduo cometendo um delito e não ser punido perante a Justiça… Seja por falta de provas, ou lentidão da Justiça, ou falhas nos autos do inquérito policial, mas isso não vem ao caso. Eu não quero criticar a ação ou omissão de alguma pessoa ou alguma autoridade, ou alguma instituição pública, pelo contrário, eu gostaria que todos se unissem a favor da paz. Suponho que esse seria o pontapé inicial para diminuir o índice da violência.
— Agradeço muito a sua nobre cooperação, sargento Wesley Montecarlo — disse o Doutor Toledo. — Mas gostaria de saber da Doutora Isabela Monterrey, delegada, mais precisamente da Delegacia de Homicídios, que deve ter algumas informações sobre esse fato que ultimamente tem deixado a nossa cidade como uma das três mais violentas do Brasil. Pergunto… Doutora Isabela Monterrey, atualmente a cidade do Recife está sendo considerada a mais violenta do Brasil, ficando à frente de São Paulo e do Rio de Janeiro… Agora me responda: onde é mais perigoso morar? Na cidade do Recife ou nas cidades dominadas pelo “terrorismo”?
— Doutor Toledo, parece uma brincadeira ou uma coisa inacreditável, mas viver no Recife está sendo mais perigoso do que morar em Bagdá no Iraque, na faixa de Gaza em Israel ou qualquer outra cidade atormentada pelos atos de terror.
— Por que a senhora diz isso?
— De acordo com pesquisas feitas por estudiosos do assunto, no mundo inteiro no ano de 2002 morreram setecentas pessoas, e em 2003 morreram oitocentas vítimas de atos terroristas.
Muitas pessoas da plateia ficaram abismadas com as revelações da Doutora Isabela, mas ela deu outros exemplos que pareciam ainda mais mirabolantes.
— Caros amigos, não se surpreendam! A realidade é essa! Talvez a metodologia que está sendo usada para verificar o nível da violência no Brasil e no mundo esteja apresentando algum tipo de falha, mas enquanto não for possível descobrir um outro tipo de instrumento para resolver essa questão… pasmem todos! É mais arriscado viver aqui no Recife do que viver em alguma cidade do Iraque.
Eu entendi o que a Doutora Isabela estava tentando explicar, mas resolvi colocar um pouco de polêmica naquele assunto.
— Doutora, com licença!
— Pois não, sargento?!
— Baseada em que informações a senhora faz essa dedução?
— Baseada em todas as informações que nós temos em mãos, as mesmas que foram divulgadas pela imprensa falada e escrita.
— É, doutora. Segundo as pesquisas, a cada ano que passa, em nosso estado morrem em média de três mil e quinhentos a quatro mil pessoas por ano, enquanto o número de vítimas nas guerras é muito menor do que os divulgados pela nossa Secretaria.
A Doutora Isabela Monterrey encerrou o seu discurso, a antropóloga Paola Sabatinni perguntou à plateia:
— Alguém deseja fazer alguma pergunta?
Todos ficaram em silêncio, então eu resolvi fazer uma pergunta ao Doutor Franklin:
— Na sua opinião, Doutor Franklin, que motivo leva o indivíduo a ingressar no tráfico de drogas?
— Eu suponho que a causa principal desse ingresso seja o desemprego que afeta milhões de pessoas no país… Não quero com isso afirmar que todos os desempregados tenham a tendência de ser um traficante, mas é que alguns indivíduos estão tentando se justificar pela falta de emprego e acabam optando pela trilha do crime. E, além do mais, outra coisa que contribui para esse fato é o preço alto da droga, que faz com que o indivíduo se iluda com o dinheiro fácil. Para que nós tenhamos uma ideia de números, nesse caso gostaria de dar um exemplo sobre a maconha: um quilo de maconha custa de quinhentos a setecentos reais, mas quando é revendida em pequenas quantidades pode chegar até a mil e quatrocentos reais, o que torna o seu lucro atraente aos que se envolvem com o seu comércio. Entenderam?
As pessoas responderam positivamente, balançando a cabeça.
— Como todos os que estão presentes entenderam o que acabei de falar… gostaria de passar a palavra para a Doutora Isabela Monterrey, que poderá nos responder. Doutora, nos diga: o que a Delegacia de Homicídios está fazendo para reprimir essa onda de violência?
— Nós temos intensificado as investigações para que possamos descobrir a autoria de vários crimes onde tenha ocorrido algum tipo de homicídio e colocar atrás das grades esses indivíduos nocivos à nossa sociedade. Porém, existe um fato que está nos deixando muito preocupados, é que mais ou menos cinquenta por cento dos homicídios são cometidos por pessoas sem antecedentes criminais, ou seja, sem envolvimento em outros crimes ou por motivos banais, que são aqueles que muitas vezes poderiam ser evitados, e que não foram porque os seus autores estavam de posse de alguma arma de fogo, e isso faz com que alguns crimes fiquem sem soluções.
— Então a senhora defende a lei do desarmamento? — perguntou a psicóloga e psiquiatra Doutora Cláudia Coreone.
— É claro que defendo. E se essa lei for cumprida por todos os cidadãos, pelas autoridades policiais de forma incondicional, sem nenhum tipo de peixada ou de apadrinhamento, acredito que em um curto espaço de tempo estaremos reduzindo o número de homicídios no país. E quanto à lei seca, que a Doutora Paola, antes do debate, me sugeriu que eu fizesse comentários sobre, eu gostaria de adiantar o seguinte: as indústrias de cervejas passam o ano inteiro gastando dinheiro com propagandas, o seu objetivo é vender o máximo que se possa… Logicamente, os impostos serão bem-vindos aos cofres públicos. Eu diria que é um caso a se pensar, pois acho que a bebida alcoólica em pouco contribui para o aumento da violência.
A Doutora Isabela estava empolgada com o seu breve discurso, quando alguém levantou o braço querendo fazer uma pergunta.
— Pois não?! Você tem alguma dúvida?
— Olhe, meu nome é Luana Martins, eu sou médica pediatra deste hospital e gostaria de saber como é que a bebida alcoólica não contribui muito com a violência, se as vítimas geralmente são mortas próximo aos famosos barzinhos?
— As pessoas morrem próximo a algum barzinho porque o seu insensato algoz muitas vezes utiliza-se de sua incapacidade de reagir de forma enérgica, devido ao consumo excessivo de bebida alcoólica, não é, Doutora Cláudia? — perguntou a delegada.
— É verdade. Mesmo porque a bebida alcoólica não altera nada na pessoa que faz a sua ingestão, a não ser deixá-la mais “desinibida”. A bebida não tem o poder de alterar a personalidade ou o caráter de ninguém.
O debate já estava se aproximando do seu fim, e a antropóloga Paola Sabatinni, antes de encerrá-lo, solicitou que o coronel Olavo Bittencourt enumerasse algumas dicas de segurança para as pessoas que algum dia sofressem algum tipo de assalto.
— E então, coronel? O que deveremos fazer?
— “A primeira coisa que deve ser feita é não reagir ao assalto… Ficar calmo, falar pouco, não gritar, demonstrar disposição para colaborar entregando todos os pertences que forem exigidos, não fazer nenhum movimento brusco, pois poderá ser confundido com uma reação, avisar ao assaltante sempre que for fazer algum movimento, como tirar o celular ou a carteira do bolso, evitar olhar nos olhos do assaltante, não olhar para trás quando o assaltante estiver indo embora e depois do assalto sair do local com uma certa pressa, mas sem correr.” Essas recomendações são feitas pelo comandante da CIOE.
— Eu gostaria de agradecer, de coração, a todos os amigos que compareceram a esta palestra. E espero que todos tenham guardado um pouco das palavras que foram ditas neste local — disse a antropóloga, encerrando o evento.  





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