Submersa - Capítulo 1




Livro: Submersa
Autora: Thayanne Rocha
Gênero: Drama


Capítulo 1 - Chorar alivia a alma


Quatorze de setembro de 2017, sábado — 14h30 
Estar submersa é estar bem mais fundo do que um fundo do poço. É ter acumulado tantos problemas, decepções e mágoas a ponto de se sufocar com eles. É já não ter mais força; é não pensar em criar força; é esperar até que o pior aconteça. E era assim que a minha mente se encontrava, totalmente inundada, cheia, submersa... Sem luz no fim do túnel, sem estradas para caminhar. Era tudo vago, tudo vazio de pessoas e cheio de sentimentos inexplicáveis. E a solução para acabar com isso? Bom, todo mundo sabe que um problema acaba de fato com algo que radicaliza e muda tudo. Mas solucionar um problema não é esquecer a dor daquilo, e, bom, eu já não queria mais sentir nada, e só tinha um jeito de não sentir dor, e também não sentir mais nada. 
Meu rosto já estava totalmente molhado, e a minha cabeça, dolorida, já fazia umas cinco horas que eu não parava de chorar, e meu corpo já estava estremecido de tanto acumular as coisas. Eu precisava colocar para fora. Olhei em volta, e não havia nada, absolutamente nada, que me fizesse parar, nada que me amenizasse por dentro. Era só eu e um prédio desativado com uma brisa leve passando pelos pelinhos da minha bochecha. 
Meus pés estavam apoiados sobre as grades do muro, dava para ver o mundo dali de cima, se eu forçasse um pouco a vista conseguiria ver as montanhas do norte da minha cidade. Dali parecia tudo tão belo, nem parecia que nesse pequeno paraíso existiam pessoas capazes de machucar, de pisar e humilhar umas as outras. 
Dizem que à beira da morte fazemos a análise dos momentos vividos, e até o último suspiro rimos com a sensação de dever cumprido. Mas, no meu caso, eu não sentia ter cumprido nada, e acho até que agora iriam poder seguir os passos sozinhos, sem mim. 
Apoiei meus braços na mureta e fiquei em pé. Contei de um até cinco, respirei profundamente, abri meus braços e fechei os olhos.
  — Acabou! — sussurrei para mim mesma.
Dei alguns passos para frente, inclinei meu corpo e virei as costas para o paraíso. Dentro de mim, estava aliviada, finalmente meus problemas iriam acabar. E esse aperto no peito só iria continuar por alguns segundos, e depois nunca mais.

Um ano antes

        Mais um dia de domingo em uma tarde com um sol daqueles. Meus amigos estavam todos na praia, divertindo-se. Já eu optei por ficar em casa. Afinal, nada melhor do que a minha casa e uns filmes no Netflix. Gosto de sair às vezes, mas também prefiro estar no meu canto, conversar comigo mesma e colocar as ideias em prática. Desde que terminei os estudos, eu meio que mudei minha personalidade, sabe? Antes eu até fazia de tudo para sair, às vezes inventava desculpas para ir na rua e olhar as “novidades”. Porém, acredito que amadureci nessa parte. Hoje me encontro mais em livros do que em festas. Preferi criar meu próprio mundo e colocar nele o que me agrada mais, que no momento eram pipoca, filme e o Guilherme, meu namorado da escola e esperava que para a vida.
— Gui, pega os copos lá na cozinha. Já estou colocando o filme para rodar — ajeitei as almofadas do sofá no chão e posicionei os potes de pipoca na mesinha de centro da sala da casa da minha avó.
— Tá bom, Ná. Já vou — ele pegou os copos na cozinha e os colocou na mesinha, preparando-se para deitar no colchão que havia posto na sala.
 Minha relação foi uma das melhores coisas que eu ganhei da escola. Tínhamos nossas diferenças, é claro, mas o legal era que, mesmo com tanta gente contra, nosso namoro era saudável nos últimos meses. Acho que finalmente havíamos amadurecido juntos, e isso nos fez bem também. Estávamos indo para o sexto ano juntos, e, entre idas e vindas, passamos pela fase do relacionamento abusivo, mas o Gui melhorou bastante. Há uns anos, eu nem podia ir à padaria sem ele contar os minutos que fazia da minha casa até lá. Ele queria controlar tudo, desde os SMS até com quem eu deveria falar. Perdi amigos, confesso. Mas isso é só questão de crescimento. Hoje, com mais maturidade, entendíamos que não precisávamos de muito “domínio” um com o outro, dávamos bem, cada um com o seu ciclo de amizade. Ele respeitava as minhas amigas, a Bia e a Nath. Acredito que 16 anos é pouco comparado à intensidade das coisas, não sabíamos lidar, e o medo de seguir o caminho da vida sozinhos nos fez achar que seria melhor controlando um ao outro. Agora com 22 anos, aprendemos que não precisamos da desconfiança, e com essa mudança dele, apesar de acharem “falsa”, estávamos nos dando bem melhor. 
Nos deitamos no colchão, e deitei sobre os ombros dele. Iniciou o filme, e estávamos lá, como um casal apaixonado, parecia que estávamos no início, e para mim até estava mesmo. Era um recomeço, e eu tinha fé que iria melhorar dali por diante.
Senti a vibração do celular dele, e ele o pegou rapidamente.
— Desculpa, Ná, preciso atender — disse ele, enquanto levantava e ia para os fundos da sala. 
Ajeitei-me e dei pausa no filme. Não demorou cinco minutos, ele voltou. Seu rosto estava diferente, sua voz um pouco trêmula, parecia que estava malhando, de tão ofegante que estava a sua respiração.
— Anna, desculpa, mas preciso ir, o Guga brigou com um cara lá do campo e estão me chamando para separar a briga. Sabe como é, né? Ele é meu irmão.
— É claro. Quer que eu vá com você? — levantei, já me ajeitando para sair. 
— Não. Não precisa, lá não é ambiente para mulheres. Eu preciso ir agora! — me deu um beijo na porta e se foi. 
Fiquei meio sem saber o que fazer, mas decidi que ele resolveria aquilo sem mim. Afinal, imagina eu ter que separar a briga de alguém? Lembro que a última confusão em que me meti foi quando a minha amiga mandou uma menina se ferrar depois de ter tomado umas bebidas. E eu lembro que tivemos que dar a volta no quarteirão para fugir dela e de quatro amigas suas que tomaram as dores. Eu não sirvo para isso.
Levantei para ajeitar as coisas desarrumadas do chão e comecei a dobrar antes que minha avó voltasse do trabalho. Comecei a guardar os copos, quando o meu celular vibrou com uma mensagem. Não tinha nome e nem era um número conhecido. Encostei-me ao balcão da cozinha e abri.
“Aposto que você acreditou na história bizarra que ele inventou. Qual foi dessa vez? Briga no campo? Faça uma visita ao Guga, a porta estará aberta para você. Beijinhos de alguém que não aguenta mais te ver enganada.”
Respirei fundo. Contei de um até dez. Mas meu coração começou a acelerar. Tentei retornar ao número, mas não completava a ligação. Adicionei aos contatos e fui ver no WhatsApp, e nada. Não era um número que pudesse ser fácil de localizar. Eu não conseguia não imaginar algo a mais nessa história, mas sou dessas que se não fizer algo que prove o contrário não consigo acreditar. Tentei ligar para o Guilherme, e nada. Nós sempre buscamos aquilo que não devemos, é o famoso “quem procura acha”. Mas, nesse caso, eu deveria? Fiquei analisando por um tempo, porém ninguém faria algo assim se não tivesse motivos. E eu não conseguia não dar atenção. Eu precisava ir atrás, precisava saber se era mentira. Ou melhor, precisava acreditar que era mentira. Minha garganta deu um nó só de imaginar o que poderia ser. 
 Joguei meu cabelo e fiz um coque rápido. Peguei a chave do carro do meu irmão e deixei um bilhete dizendo que não demoraria, peguei meu celular e fui. O medo nos faz querer ir além às vezes; nem sempre é bom, mas na maioria é preciso. O medo te dá forças, e é nessas horas que você descobre o quanto é capaz.
Fiquei umas horas parada no portão do Gustavo (amigo do Guilherme), aquele frio na barriga de pensar se deveria ou não seguir adiante. Mas estava ali, respira e entra.
Saí do carro e andei lentamente. Passei pelo portão, e parecia não ter ninguém na casa. Minhas mãos tremiam mais do que tudo, parecia até que eu não tinha mais controle do meu corpo. Passei a mão sobre a maçaneta, e hesitei algumas vezes até enfim criar coragem. E, quando percebi, eu já estava lá dentro. Estava quieta, para não fazer barulho, mas parece que meu coração resolveu ser uma escola de samba, podia ouvir e sentir bem mais forte do que o normal. Estava nervosa. Subi as escadas e passei pelo corredor, olhando para os lados e para trás. Não vi ninguém, até que, bem no final do corredor, escutei uma risada e andei bem devagar para conseguir ouvir melhor.
— Qual foi a desculpa que inventou para ela? — era uma voz feminina, não consegui reconhecer. — Você precisa largar dela e me assumir, as coisas estão ficando mais intensas para mim. 
— Intensas? Eu vou largar ela, só tenho pena. Ela é sentimental demais. Tenho medo de ela ter um treco quando eu falar que eu nunca gostei dela de verdade. 
Meu coração quase parou; se não parou, ele estava a um passo de parar. Sentia minhas pernas trêmulas, mas insisti. Eu precisava ver, precisava saber quem era e por que ele estava fazendo aquilo. Abri a porta, lentamente, e já não escutava mais diálogo. E, quando a porta ficou completamente aberta, eu entendi o motivo do silêncio. Era o Guilherme, e ele estava completamente nu, aos beijos, ou melhor, aos amassos com uma ruiva.
— Guilher… — minha voz quase não saía, e eu travei. 
— Anna?! — gritou ele, que logo em seguida levantou da cama. — O que está fazendo aqui? Deu para me seguir agora? — parecia irritado.
— Te seguir? Ai, meu Deus, olha para você — engoli as lágrimas e tentei ser forte. — Não era mais bonito dizer que estava em outra? 
— Para você usar seus dramas como sempre? Chorar, gritar e dizer “Não, por favor, não me deixe”? - ele falava mais alto. — Não, Anna. Eu estou de saco cheio de você e de suas historinhas de livro infantil. Será que você não percebe que é só mais uma iludida? 
— Iludida?
— Sim, iludida. Gorda! E, ainda por cima, burra. De achar que um cara como eu iria querer algo a mais com você. Olhe para ela e veja o que você nunca vai ser. 
Pensei em mil respostas. Mas nenhuma delas parecia à altura. Virei-me, desci as escadas e decidi fazer o que deveria ter feito há muito tempo. Entrei no carro e fechei a porta. Queria chorar, queria colocar para fora. Mas não hoje. Não agora. Não por ele.
Liguei o carro e dirigi. Eu podia aguentar aquilo. Não fui a única, e nem seria a última a sentir. Queria guardar para mim, e era isso que eu ia fazer. Guardar.



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