Por trás das sete cores - Ruthy S. Doretto




Quote:

"— Amor, você já disse isso… — falei, quando ele falou pela milésima vez que tinha que buscar a Luci e não era para deixá-la comer doces que ia ganhar na escola hoje.
— Eu sei, só estou falando, eu pensei que não havia falado antes. Nós podíamos ir viajar, você não acha? Você quer visitar algum lugar? Eu queria ir para o México, lá deve ser um lugar muito bom — ele parou de falar. — Para a ÁFRICA! — disse, mais alto, e me assustou.
— Que susto, Fred!
— Desculpa! — ele pediu, com um tom de voz que nunca havia feito antes. — Mas seria interessante a gente ir para a África…
— Fred, eu não quero ir para a África…
Ele olhou para mim frustrado.
— Por quê? Não se preocupe com dinheiro, eu tenho muito e nós podemos ir…
Fiquei de frente com ele e o olhei atentamente.
— Amor… calma.
— Você quer ir para onde? Nós vamos agora, eu vou arrumar as malas.
— O quê?! — eu disse, confuso. — Nós não vamos para lugar nenhum agora, Fred! — já estava me irritando.
— Vamos transar? — ele disse, depois de ficar me olhando fixamente. — Vamos… — veio em minha direção para me beijar.
— Não… não… nã… — ele me beijou com força. — Fred! Para! — empurrei-o. — Eu não quero! Você tá me assustando!
— PARA DE GRITAR COMIGO! — ele gritou tão alto, que o Halter se assustou, até eu me assustei. Fiquei com medo de ficar perto dele. — É melhor você ir embora, AGORA! — disse, irritado.
Não tinha como eu não olhar para ele assustado. Acho que todos os meus ossos paralisaram naquele momento. Ele estava transtornado. Suspirava muito rápido e o seu rosto estava vermelho.
— Fred… — chamei.
— Sai da minha frente, Thomas…
Respirei fundo e senti a necessidade de ligar para Mary. Fingi que ia embora e liguei para ela, trancado dentro do banheiro.
— Mary… o Fred, ele tá estranho — disse, com a voz baixa para ele não me ouvir.
— Meu Deus… — ela resmungou. — Eu estou indo, fica perto dele, não deixa ele fazer besteira.
Desliguei o telefone. Como eu ia ficar perto dele com ele irritado?
— Abre a porta, Thomas! — ele esmurrou a porta. — ABRE A PORTA!
Tudo ficou quieto de repente.
Abri a porta e ele não estava na sala, nem no andar de cima. O quarto dele estava todo bagunçado. Os cobertores estavam jogados no chão, os livros todos jogados, tudo, tudo estava no chão.
— Por que você fez isso?
— Eu estou arrumando! — ele disse, ainda irritado.
— Mas estava tudo arrumado antes.
— Você viu a bagunça que estava isso?
Engoli em seco e não disse nada. Ele estava machucado, o braço sangrava.
— Você se machucou.
— Não é da sua conta! — ele me fuzilou com o olhar.
Saí do quarto depressa e fiquei na sala. Eu estava assustado e com medo de ficar ali. Assim que peguei o telefone para ligar para minha mãe, Mary chegou apressada e me pegou chorando.
— Cadê ele?! — ela perguntou, jogando a bolsa no sofá.
— Está no quarto jogando tudo no chão! — disse, com raiva e triste ao mesmo tempo.
— Ah, Thomas… — ela estremeceu. — Não vai embora, eu quero conversar com você — pegou o telefone da minha mão e o colocou no lugar.
— Eu quero ir.
— Eu vou cuidar dele e já volto — ela colocou meu cabelo atrás da orelha. — Busca a Luci… eu já liguei na escola — ela colocou a mão no meu peito e saiu.
— Cadê o papai? — Luci disse, quando entrou no carro.
— Ele está com a vovó, só eu vim te buscar, meu anjo — ela sorriu para mim no retrovisor.
— A professora pediu para a gente desenhar nossa família — falou, sorrindo com um papel de desenho nas mãos.
— É…? Eu quero vê-lo depois — fiz voz fofa.
— É — ela confirmou. — Você está aqui, mas a cor branca não pegou na folha, você tem o cabelo amarelo.
Ri quando consegui me ver desenhado na folha.
— Nós vamos fazer um quadro dele.
Ela sorriu.
— Eu quero o papai também — ela resmungou.
— Estamos chegando.
Luci foi direto para o quarto dele quando chegamos.
Mary olhou para o chão quando me viu na cozinha.
— Você foi muito bem hoje… — ela disse, com a voz triste. — Thomas… — levantou o rosto, mas não olhou para mim — se você quiser ficar com o Fred, você vai precisar ter paciência, amor e muito carinho, porque ele não é igual às outras pessoas. Ele precisa de ajuda para continuar e ele se sente confiante com você. Se você não for uma pessoa paciente e que entenda o que ele tem, você não precisa mais voltar, eu não quero vê-lo machucado por outras pessoas, como sempre foi."


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